quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A História da Psicoterapia


A História da Psicoterapia

 21/08/13

Marco Aurélio Baggio

 

...E vivem os mortais de trocas mútuas.

                       Lucrécio

 

Psicoterapias são práticas milenares, mediante as quais um homem mais experiente acolhe as queixas existenciais de outro homem e procura indicar caminhos mais eficazes para solucionar a problemática do consulente.

Psicoterapia remonta a Antífon e sua arte de escapar da aflição. Para este sofista atuando por volta de 411 a.C. , a felicidade deriva de uma vida em harmonia consigo mesmo, usufruindo o sujeito de paz e serenidade, sendo capaz de evitar a perturbação e os incômodos desnecessários. Epícuro e Lucrécio são argutos pensadores que se basearam nas evidencias do que há de melhor humano entre nós.

Epíteto, romano, 50 d.C. – 127 d.C. escreveu o primeiro manual de psicoterapia: A Arte de Viver. Nele demonstra que é a razão a suprema retora da vida psíquica. Preconiza que cada um deve criar seu próprio mérito para com ele se autosustentar.

O maior psiquismo surgido na História da Humanidade, o verdadeiro criador do homem moderno, aquele cuja mente não conseguimos ir alem, William Shakespeare, disse, escreveu e dramatizou quase tudo o que se sabe sobre o poder terapêutico da linguagem em psicoterapia. Trezentos anos depois, Freud erigiu suas doutrinas, constituindo o corpo abstrato que se provou extremamente prático e eficaz acerca de como é e de como funciona o psiquismo humano, normal e neurótico.

Com Shakespeare, o personagem literário torna-se capaz de verbalizar seus afetos, suas emoções, seus conflitos, seus impasses, e, ao assim faze-lo perante uma platéia – ou um interlocutor silente e arguto - , torna-se capaz de escutar a si mesmo. Em Shakespeare, a vida é drama, e como tal, a realidade está sempre em mutação. Como tão bem ensinou Heráclito.

Em psicoterapia a díade, a dupla psicoterapeuta – cliente, colocam-se empenhados no processo/circuito de acrescer e de edificar a personalidade/pessoalidade do consulente.

Sabe-se que só nos humanizados através da relação de boa qualidade com outros homens. O que se quer é empreender a hominização progressiva do sujeito. Para tanto, o processo psicoterápico busca incrementar a capacidade de introspecção do indivíduo, visando este arrancar-se da obscura escuridão dos internos endógenos para aquilo que logo se torna a luz da intelecção e a iluminação esplendorosa de sua consciência. A psicoterapia tem por objetivo, por teleologia, fazer o cliente abraçar uma transcendência secular, laica, que contemple o sublime.

Sabe-se que, com extraordinária frequência, o homem tem em si seu maior inimigo.

A psicoterapia lida com nossas “crenças rachadas”, nossas incongruências e nossos paradoxos. Opera com a “doida salada” que provém de nossas escolhas e de nossas uniões incompatíveis. Cada vez mais, a psicoterapia utiliza os dados e os fenômenos  provenientes da dimensão inconsciente do psiquismo, para diretamente instrumentar um EU autônomo que atua e faz efeito ao acontecer. Hoje, o EU passa a gozar de um estatuto singular legitimo. Nele, no EU, há um espaço, uma ocasião para apreender o mundo das coisas e dos objetos, a fim de penetrar e inteligir seus muitos segredos.

. Se a vida não tem sentido adredemente determinado, faz-se sentido de vida ao se bem ou mau viver, em um mundo externo que insiste em se apresentar perenemente desarrumado e corrompido.

Se nosso mundo interno é um verdadeiro inferno, caldeirão freemente de tendências as mais desencontradas e,  sabendo que entre a criação e a queda há apenas um intervalo que nós chamamos ‘ nossa vida’, vive-se para desfrutar de momentos em que nós, homens, somos bufões donos de nossos fados.

Psicoterapia é o que vai permitir ao cliente passar a relativizar e a fluidificar aquilo tudo que acreditava e mantinha como sendo verdade absoluta. Em psicoterapia, logo se dissolvem as “certezas fajutas” trazidas como memes inoculados como verdades absolutas e incontestáveis no  psiquismo do sujeito. Logo, há um processo de desabssolutização do relativo. Junto, correlato, acontece a desilusão de suas ilusões e de suas pretenções irrealizáveis.

O cliente, a seguir, passa a desmisturar-se da meleca conglomerada daquilo tudo que comparece como um aglutinado indiferenciado em seu psiquismo.

O que dá estofo ao ser humano é a incorporação e a internalização de cultura humanística: conhecimentos esgrimidos de elevada qualidade. O psicoterapeuta posta-se como um sacerdote leigo, devotado a capacitar seu cliente a encarar e a atuar na realidade da vida e das coisas, tais como elas são.

A historia da psicoterapia é o relato de como, a partir de um  núcleo inclito do verdadeiro si mesmo – Self - , âmago endógeno, xispa de luz da mesmidade da pessoa, esta    passa a lidar com adequação e argúcia, com a dura, cruel e impávida realidade.

A vida enegrece em contato com a realidade. Viver é muito perigoso.

Toda psicoterapia tem por escopo, por objetivo, facilitar o desenvolvimento psicoafetivo do ser humano. É arte humana, ourivesaria humanística, mediante a qual obtém-se o desenvolvimento e expansão de um EU interior. Já que o que está fora do EU reduz-se à um mar de desventuras.

A natureza humana é a mesma em todas as épocas históricas e se apresenta como um EU implicado nas mesmas problemáticas, em uma conflitiva que é, ao mesmo tempo, lúdica, bélica, relacional que pouco varia.

No século XXI, a história da psicoterapia registra que existe uma única psicoterapia. Ainda que composta de miríades, de centenas de peculiaridades, de vicissitudes e de especificidades. Sendo tão importante e cada vez mais procurada por uma humanidade que tuge e muge em sofrimentos, o que nos espanta é o fato de que a psicoterapia ainda, não sei porque, não esta disponível para as multidões.   
Sua História continua a ser escrita...

O QUE É ESSA COISA CHAMADA PSICOTERAPIA?


O QUE É ESSA COISA CHAMADA PSICOTERAPIA?

 

Parafraseando Cole Porter


 


MARCO AURÉLIO BAGGIO


 

11-6-2012   20-8-2013

   13 –10 – 2011   -- 26-2-2011------21/02/2011   

 

A primeira grande concepção sobre psicoterapia surgiu com Freud, entre 1887 a 1935. Há oito Freuds distintos.

Ferenczi. Rank. Stekel. Reich. Alexander. Fenichel. Sachs. Melanie Klein. Winnicott. Franz Alexander. Jung. Lacan   Pichon Riviere .  Liberman   Gestalt. Perls. Carkuff.

Grupo > Moreno – Yalom

Franceses – Nacht. Laplanche e Pontalis. André Green.

Deleuze e Guattari - Baremblitt. Esquizoanálise.

 

A Psicoterapia trata do Édipo

Relação de poder normatizando a sexualidade.

Gostar da mãe: possuí-la, incorporá-la.

Antagonizar ao pai, querer afastá-lo ou destruí-lo.

São vivências de amor e de apego; de ódio e de repúdio. A necessidade  de conviver com os dois obriga a criança a vivenciar, em drama, o Édipo.


Aceitar sua infantilidade, sua dependência, sua impotência. Aceitar a castração. Perder o narcisismo excessivo onipotente infantil.  Aprender a ir diante, ambivalente, para assim  sobreviver. Adquirir habilidades. Crescer. Independentizar-se.

 O Édipo é a forma privilegiada de formação do sujeito psíquico no Ocidente capitalista familial cristão urbano.

Trata-se de  vivenciar os percalços de uma  ‘novela familiar’.

Não é a única forma de constituição do sujeito psíquico.

 

Em toda psicoterapia estabelece-se relação cliente – psicoterapeuta.

O cliente procura o profissional. O cliente vence suas inibições e vergonhas. Expõe sua demanda: o que busca, o que quer, o que acha que precisa. Derrama sua problemática.

Não há psicoterapia de graça. É sempre um comércio, um intercâmbio de interesses e de valores.

O homem é um ser de ambiguidade, de ambivalência.

O homem é um ser ávido, que quer tudo e muito e constantemente.

O homem é um ser de irresolução, de indefinição, cheio de vacilações e de dúvidas. O homem acumula consigo, em seu psiquismo, elevado índice de indecisões.

O cliente relata um conjunto de contenciosos que se acumularam em seu psiquismo, se encavalando como galhos e lixo formando represa, impedindo o livre fluir do fluxo vital do bom viver.

 O paciente está todo engastalhado, peado daqui e dali, tenso e insolvido. Tensão excessiva leva a fadiga e ao colapso.  

Vem perdendo eficiência em suas atitudes, perdendo qualidade em seu trabalho, perdendo sua capacidade de obter o prazer disponível e legítimo em suas atividades habituais. Quase nada dá certo. Quase nada prospera. Quase já não há mais lucro ou vantagem em viver.

Está vivendo em sucessão de impasses e de indefinições sofríveis e altamente desgastantes.

O paciente apresenta um estado de ânimo desmoralizado. Seu estado de humor está nitidamente rebaixado: mau humorado com frequência; distímico por épocas inteiras; tristonho e desanimado, tantas vezes. Cansado sem motivo, desmotivado e pessimista, tantas outras vezes. O âmbito geral de sua vida apresenta-se destemperado, insosso, sem graça e sem sentido. O mau humor frequentemente acompanha-se de irritação, de intolerância e de estupidez. Mau humor é véspera de infelicidade.

 

Se as coisas não transcorrem como você quer, aja como homem: dê patada pra todo lado . Millôr Fernandes.

 

O psicoterapeuta, após ouvir o desabafo do cliente, já há muito capacitado, logo faz um recorte gestáltico das queixas  e  das demandas do cliente.

Ser psicoterapeuta profissional é ser capaz de estabelecer rápida empatia por seu consulente e, logo, estabelecer contra-transferência simpática, positiva, com relação ao cliente que o escolheu e, nele, terapeuta, depositou sua conflitiva.

As problemáticas humanas são poucas. Não passam de umas trezentas. Ou menos.

Os dramas que de desenrolam no espaço interno do psiquismo dos seres humanos é uma coleção finita e restrita de poucas centenas de peças. Assim, ser psicoterapeuta é como ser um maestro regendo orquestra, ou como cineasta montando filme ou, melhor ainda, um hábil diretor de teatro coordenando falas e desempenho de atores.

Com o passar das décadas, a gente aprende e se habitua. Quase não dá erro. O ser humano é matemático em meio a furrupa, a algazarra e a algaravia que apronta. Seus rififis, suas badernas, seus bafafás, suas felonias, seus zilbadones e até suas farândolas, são os mesmos, absolutamente previsíveis.

Desde os gregos, os romanos, os persas e os negros africanos, já foram mapeadas todas as trampolinagens de que o homem é capaz de cometer. Não há quase nada de novo sob o Sol. Cohelet, o pregador e Shakespeare demonstram isso.

O que o consulente traz para tratar em psicoterapia?  Sua culpa. Suas culpas.

Sua culpa cristã de ter sido inoculado com a mancha imarcescível do “pecado original”. Nasceu devedor, faltoso, pecador, irremediavelmente marcado  com o ferrão que o acusa de ser um ser inferior, que deve viver submisso, arrojado diante de um nunca explicitado criador Senhor Deus.

Essa asquerosa e falsa montagem de Paulo, o criador do cristianismo hegemônico vitorioso, tem que ser desacreditada e desmantelada com vigor. A criança humana, o bebê nasce “limpo”. Sem dívida a nenhuma monstruosa condenação ou armação divinatória.

Outras culpas são relatadas.

A de ser voraz e querer excessivamente o disponível. A culpa de avançar sobre o que é dos outros, com avidez e renitência.

A culpa de possuir desejos indecentes, imorais e perversos.

A culpa de cometer atos maldosos e malignos.

A culpa de ser quem se é : mal-enjambrado, feio, torto, insuficiente, disforme,  dotado de poucas qualidades.

A culpa de não ter chegado a ser quem gostaria de ter sido.

A lama de não ser o que se quis.

 

A psicoterapia, em sua dimensão catártica, confessional, é poderoso instrumento para acarretar a desculpabilização de tantas falsas auto e hetero acusações.

 O psicoterapeuta sempre trabalha podando as excrescências das pretensões excessivas que todo cliente possui. A idealização exaltada de si mesmo, instilada em nosso psiquismo, em nossa sociedade ocidental capitalista, sob a forma de criança excessivamente narcizada  por pais classe média em ascensão cultural e financeira. Filhos narcisos introjetam uma elevada e inadequada pretensiosidade acerca daquilo que são (e que não correspondem quase sempre).

E, sobretudo, pretendem por demais aquilo tudo que acham que o mundo lhes deve, no futuro.

Em psicoterapia, é de bom alvitre coartar logo essas ilusões idealizadas, postas no campo do impossível e do irrealizável, que só fazem sofrer, uma vez que  mantém o sujeito hiante, de boca aberta, devorando apenas vazio e ar.

Baixar a bola, amortece-la, botar no terreno, altear a cabeça, para poder avaliar qual a melhor possível jogada a fazer : isto é função da psicoterapia.

Pretensiosidade e idealização excessivas, de si, do outro, da vida, do país, das próprias qualidades, é um dos principais componentes infelizes que captura, em armadilha insolúvel, o psíquico e a vida do ser humano.

Em um mundo multifário, desmastriado, esfrangalhado na incerteza de seus valores éticos tradicionais, hoje colocados em precipitação infinita, a questão da lealdade, da sinceridade e da honestidade vem se constituindo motivo de conflitos  e de sofrimento.

 Ser leal a quê? A quem? Serei correspondido em igual medida? Ou a ¾ partes, ½, 1/3, ou a 1/20? Como agir? Como me manter fiel a um pacto que, um dia, lá atrás, pareceu tão vantajoso para as partes, tão fácil de cumprir? A estratégia relacional  nesses casos é o jogo “etapa por etapa, legal comigo, legal contigo”. Aja com decência e lealdade sempre que receber do outro esse tratamento. Pague a defecção com o afastamento e a punição.

Um tema candente que sempre comparece nas relações afetivas e sexuais dos seres humanos adultos é o da infidelidade. Nosso imaginário é sobrecarregado de demônios e de seres que não existem, pululando no sol negro da melancolia.

Chifre, corno, infiel, traidor, cafajeste, indecente, ordinário, puto, vagabundo, insincero, enganador, velhaco, mau-caráter, canalha, inconstante, inconfiável, trapaceiro. A quantidade de sinonímicos evidencia a quanto o tema da fidelidade/infidelidade opera tantalizando a mente das pessoas, em nossa pré conceituosa sociedade. Fidelidade/infidelidade é um dos assuntos que mais perturbam as relações humanas, sobretudo a dos casais. É uma questão das que mais neurotiza e faz sofrer as pessoas.

Cinicamente, diz-se que chifre não existe, é uma coisa que puseram em sua cabeça. Pessoas esquecem que o desejo sexual humano possui natureza perversa: cada um goza com o que pode, com o que quer e com o que consegue obter. A natureza do desejo pulsional humano é polimorfa, plurívoca, multifária: quase tudo, quase todos, são passíveis de se tornarem investidos de libido, de interesse e de excitação sexual.

Cada um come o que gosta. Os seres humanos, sobretudo aqueles injetados de testosterona, tendem a serem polígamos e promíscuos.

Se a fidelidade e a fidelização de parceria amorosa é uma virtude desejável e, por decência, tantas vezes alcançável, a infidelidade, isto é, a variação de parceria sexual é um bem também. E uma especial delícia. A excitação sexual em variação não se deve censurar, é um valor em si.

Mantém-se fiel quem quer e consegue. É bom.

A vida me ensinou contudo, que a pessoa só pode, só deve ser fiel a si mesmo. E assim cumprir o desiderato de seu instinto pessoal.

Em psicoterapia, trabalha-se sempre e muito com a elaboração das perdas ( por sinal, a  maioria delas são evitáveis), que o transcurso da vida acarreta. O cliente traz ao médico psicoterapeuta os lutos protraídos, mal elaborados, patológicos, que permanecem como estranhos atratores, esgotando energia endógena, depletando o psiquismo do sujeito.

 O objeto querido, amado, que se foi ou que lhe rejeitou ou que fez o desfavor de morrer, tende a ser internalizado, incorporado em um espaço na mente do enlutado. Trata-se de um cadáver, apodrecendo na sala de estar da vida do sujeito. Tal despojo implora por um tratamento ritual  para carpi-lo, embalá-lo e enterrá-lo, com todas as honras a que ele – objeto periclitado, objeto rejeitante, objeto morto, objeto filho da puta que não mais lhe quis e o  abandonou  ao  relento –,  com todas as honras (e xingatórios) que ele faz jus.

Luto mal processado entristece. Tristeza é a mãe de todas as depressões. Essas, por sua vez, é responsável por mutações endotropocinéticas que levam ao aparecimento das doenças psicossomáticas e, mais remotamente, às doenças crônico-degenerativas.

Neste campo, nesta temática – o do luto, da tristeza por perdas reais ou imaginárias, nas depressões leves e moderadas,

 a psicoterapia possui uma eficácia resolutiva terapêutica de primeira ordem.

Em psicoterapia, trabalha-se bem com o descarrilamento psiconeurótico de vida das pessoa. O cliente chega relatando uma sequência de atos torpes e de desempenhos antieconômicos, inadequados. A partir de certo ponto ou de determinado evento, sua vida tornou-se uma inconsequente sucessão de desacertos e de retrocessos. Parece uma carreta de 77 toneladas descendo desembalada, sem freios, na Betânia,  pelo Anel Rodoviário de Belo Horizonte. Ou um trem de ferro descarrilhado arrasando o que encontra pela frente. O relato dramático é o de uma pessoa que perdeu seu talante, sua capacidade de fazer valer sua vontade, seu juízo e incapaz de buscar e obter aquilo que lhe convém. É altamente gratificante escorar com poderosos macacos hidráulicos daqui e dali, levantar isso e aquilo, reformar o possível até recolocar o sujeito por cima dos trilhos das boas possibilidades de sua pessoalidade.

É claro que ele terá que pagar os estragos e as dívidas e passar a aceitar ser mais manso e mais humilde, aprendendo com os erros a se conduzir segundo as regras do jogo na sociedade em que vive.

 Voltando a correr sobre mansos e seguros trilhos, irá recuperar as perdas, gerar nova riqueza e, lá, depois, mais cambono de si mesmo, seguro e certo, poderá inventar moda e até criar algo com valor artístico.

 

Psicoterapia é dispositivo específico e eficaz para ajudar a pessoa a se desmisturar de tanta gente e de tantos preceitos que se tornaram avelhantados e disfuncionais. Toda relação humana, como todo alimento para consumo, vem com prazo de validade demarcado. Relações pais-filhos costumam ser as mais duradouras. Colegas de escola, companheiros de trabalho, de empregos, círculos sociais, mesmo interesses pessoais, lá um dia, se distanciam e acabam.  Amores e amizades hoje, costumam ser fugazes.

A psicoterapia faculta a pessoa a aceitar melhor o encerramento da até então, brilhante e desejável relação para meter-se logo em nova relação frutuosa que se descortina.

Para cada ilusão que se vai, há outra que se oferece.  Para cada janela que se fecha, há sempre uma porta que se abre.

Transitar mais do que locomover-se de carro pela cidade ou viajar pelo mundo. Transitar pelos novos amores, amigos, interesses e associações que logo se descortinam é desiderato desejável.

Psicoterapia é tratar de relativizar, de desabsolutizar o relativo que o cliente neurótico toma como verdade absoluta.Trata-se de um trabalho de desmantelamento dos memes disfuncionais e encarquilhados, trazidos do passado do sujeito.

O psicoterapeuta sabe que a verdade é composta de várias faces, inúmeras versões, incertas nuances. A verdade nunca é pedra basilar ou fecho de abóboda, nem mesmo pedra de toque, como quer o estreitamento comodista da mentalidade do neurótico. A verdade é uma dama de muitas faces e inúmeras roupagens. A moda,  á maneira da peça   IRMA VAP.

Desempenha variadas funções no conceito de circunstâncias que a envolve.

A psicoterapia moderna teve início por volta de 1895, quando Freud foi calado por Frau Emmy von N. que queria falar, falar, falar e falar, ‘limpando sua chaminé’. Nessa época, induzindo suas jovens clientes burguesas vienenses instruídas a recordar de eventos passados, Freud deduziu que os sintomas e os sinais histéricos tinham origem, eram causados por acontecimentos de cunho erótico sexual recalcado, soterrados no psiquismo de suas consulentes. Pareceu-lhe então, que no passado delas, estavam ancoradas a gênese de suas estúrdias manifestações.

Primeiro Freud empregou a hipnose. Depois, descobriu a associação livre de idéias como a forma de obter acesso as memórias reprimidas. Surgia assim, um novo material psíquico relatado que aparecia sob a forma de trauma, traumas psíquicos, eventos traumáticos que marcaram indelevelmente os psiquismos dessas pacientes.

Logo, em decorrência, Freud descobriu que, com o afloramento do material sexual recalcado, a clientela tomava consciência de sua problemática.  Adquirir mais ampla consciência de suas vivências permitia a cura dos sintomas. Algo súbito. Brilhante. Quase espetacular, acontecia... Ampliar o escopo de sua consciência não só curava os sintomas, como favorecia a tomada de novas atitudes requeridas para que a vida da pessoa seguisse adiante. Durante anos, décadas, tudo parecia correr bem. A fórmula química mágica de cura do psiquismo neurotizado estava descoberta. E funcionava.

Até hoje, terapeutas novatos ou afoitos creem e professam práticas visando rememorar o passado, tomar consciência dos fatores reprimidos e assim, curar os sintomas. Alguns, eivados  de devota convicção, cometem o absurdo de induzir a formulação de vivências traumáticas em impossíveis ‘vidas passadas’.

 

Só que... Só que havia pacientes que não faziam esse circuito... E de 1910 a 2013, o número de pacientes que desborda e não segue esse primoroso roteiro, só vem aumentando. A maioria absoluta dos clientes não tem quase nada recalcado em seu passado, a não ser banalidades.

O inconsciente das pessoas quase nada apresenta de novidade e menos ainda, de traumatismos especiais. Para piorar, sabe-se hoje, com precisão matemática, que tomar consciência de conflitos, de problemas, de situações em processo de confecção, quase não muda nada. Adianta muito pouco.

É, agora eu sei: Percebo e integro todos os componentes da minha conflitiva que me faz sofrer e ser tão insuficiente. E daí?    

O E daí? So? mata qualquer iniciativa.

Cavoucar o passado, fazer arqueologia em e de si mesmo, encontrar restos e traços marcantes, ampliar o escopo referencial de suas vivências é valioso e é útil.  Mas não tanto. Quase nunca o bastante para comover o paciente a mudar de atitudes e aprender novos comportamentos.

O ser humano não é um animal lógico nem inteligente. É antes, um bicho instruído por outros vetores menos nobres. Dá até preguiça lista-los...

Freud deparou espantado, com o esquisito fenômeno da resistência.

Todo paciente resiste a mudar. Resiste a abandonar seus queridos, dolorosos e antieconômicos sintomas. Resiste a perder as vantagens secundárias espúrias que desfruta com sua doença. Resiste, sobretudo, a crescer. Seres humanos detestam crescer.

Biologicamente, aquele tubo oco que vai da boca pelo aparelho digestivo até o ânus, cresce para os lados, cordado, vertebrado que é, bilateralmente, por um processo de ingestão de alimentos que, em biologia evolutiva, denomina-se intussuscepção.

Psiquicamente, seres humanos crescem na maioria dos vezes, pela mera passagem do tempo. Ou quando muito lhes convém.

Para crescer necessitam de vivenciar tempos largos, extensos, tranquilos, sem açodamento e sem estarem alfinetados por conflitos ou por urgências.  

Existencialmente, seres humanos crescem superando os conflitos e os embates corriqueiros do dia a dia. A maturidade viceja no intercurso da oposição, da frustração, seguida por sua  superação.

A identidade pessoal viceja vivenciando o conflito e a oposição. Suplantando-os em escansão.

Repressão de nossos baixos instintos é absolutamente necessária para que nos tornemos seres imersos e participantes na sociedade.

A sociedade é nossa barreira apolínea, precariamente eficaz contra as más surpresas da mãe madrasta natureza.

A civilização é nosso bastião ético, o palácio apolíneo, construído pela razão, para nos proteger dos cataclismos da natureza, na feliz acepção de Camille Paglia.

Para o paciente crescer é necessário que aprenda a articular a dualidade ou a pluralidade dos paradoxos: elementos componentes díspares, aparentemente incongruentes e que, no entanto, possuem um ou mais pontos em comum, permitindo uma articulação, como dobradiça que os junge e os faz funcionais. Paradoxos são nossas estimadas “crenças rachadas”, na feliz definição de William Blake.

Se o paradoxo gera impacto paralizante, de início, a sua resolução acarreta progresso notável no arcabouço psíquico do sujeito, enriquecendo-o.

A feliz definição de Henri Ey define um fato:

       A neurose é a patologia da liberdade.

Certo que os esquemas mentais psiconeuróticos  constrangem graus montantes da liberdade do sujeito.

A liberdade, aérea, sutil, inaparente, é a maior conquista que o Ocidente outorgou a seus povos. Seus ares friozinhos são o oxigênio que instila  nas pessoas felizes por viver no Ocidente.

Toda psicoterapia visa ampliar o grau de liberdade a ser desfrutada pelo cliente. Daí só é eficaz a psicoterapia laica, secular, não ideológica, não devocional, não sectária.

Há uma minúscula chama, uma fagulha, um brilho, no âmago da interioridade da pessoa e essa chama, essa xispa fala e age como brio.  Sem deuses e descrente de seres  que nunca existiram.

Toda psicoterapia atua sobre a dependência que é constitutiva de todo ser humano. Nascemos dependentes dos bons amorosos cuidados da mãe-humanidade. Daí não surpreender sermos comodistas, preguiçosos, acomodados. Sempre desejosos de que o outro nos embale no colo e nos acalente. Estamos sempre implorando que um amor, um omnibus, um patrão, um deus, um partido político, ou um Jumbo nos acolha em seu bojo e nos garanta boa viagem sem maiores cuidados e sem maiores responsabilidades. Todos nós queremos morar em Brasília para´poder desfrutar das mordomias que só os poderosos do judiciário e os políticos se outorgam e se locupletam.   Ou, na melhor das soluções, que um diabo venha e nos carregue. Todo neurótico é um maior abandonado.

Fazer psicoterapia implica em o cliente assumir-se a si mesmo, cada vez mais. Toda terapia atua no sentido de fazer reduzir a dependência e ampliar a autonomia da pessoa.

Além da liberdade pessoal, o segundo maior desiderato outorgado pelo Ocidente a seus habitantes, é a responsabilidade pessoal por suas ações, opções e omissões que cada pessoa tem o dever de assumir. Isto está no centro de nosso sistema de valores.

Nossas identidades pessoais, narcisistas e egoístas, são fruto também do Ocidente. Nossas personalidades distintas, combativas, introspectivas, conflitadas e extremamente verbais e criativas são um produto da cultura Ocidental.

 

Como o processo psicanalítico padrão envolvia elevado investimento de tempo, de dedicação e de dinheiro, com suas cinco sessões semanais de 50 minutos, durante 3 a 6 anos, desde 1920, psicanalistas se empenharam em tentar acelerar o processo de tratamento. O que se objetivava era desenvolver técnicas, meios e modos de uma Psicanálise abreviada ou de uma terapia breve. Esse ideal percorreu décadas,  e chegou até nós, até hoje. Dezenas de autores, centenas de livros propõem uma terapia breve.

Li e estudei uma centena. Alguma coisa ficou. A forma como opero hoje é uma terapia abreviada, às vezes, até, em sessão única.

Com o acelerar do tempo vivenciado e a vertigem turbulenta que tomou conta das vidas nas cidades do Ocidente, com suas mil solicitações, milhares de ofertas corruscantes e, sobretudo, com o avassalador ímpeto intrusivo do celular, do computador e de toda a nanotecnologia baseada no silício, a internet e os sites de compras e de relacionamento, as pessoas se tornaram cada vez mais voltadas para fora de si, externalizadas: o que interessa, o que é novidadeiro e fascinante é aquilo tudo que está fora delas. Com isso, o espaço para o íntimo restringiu-se. A subjetividade perdeu pontos e interesse.

 Todos temos medo de Virgínia Woolf, da própria subjetividade e da psicanálise.

Nós, veteranos de 48 anos de prática e de estudo, tivemos que, malgrado tudo, de nos adaptar. Foi assim que foi surgindo o modo marcoaureliano de fazer psicoterapia efetiva, esperta e rápida.

Para isso, foi preciso abandonar preceitos e dogmas clássicos. Muitos deles já relatados  nas páginas anteriores.

Aprendemos a diagnosticar rápido que certos clientes possuem, como dotação pessoal, particular, um especifico talento terapêutico. São clientes que após relatar sua conflitiva, ouvem, absorvem e põem em ação as primeiras indicações do terapeuta. Logo rompem suas inibições, suplantam seus impasses e criam novas configurações para suas vidas.

Novas interpretações do psicoterapeuta agem como fermento, estimulam o aparecimento de novas vivências, criando o vórtice de uma espiral prospectiva, ascendente, em crescimento pessoal rápido e virtuoso.

Se é raro encontrar cliente dotado de talento terapêutico, é extremamente gratificante trabalhar com tais seres privilegiados. Quero afirmar que hoje são eles aqueles que dão credibilidade e chancela ao nosso trabalho. Com eles aprendemos, na certeza, o quê, como, de que maneira funciona a psicoterapia.

Alegrias, irmão!

Com tais clientes obtém-se logo a amortização e a compassivação do superego superexigente e censor. Eles aceitam logo seus limites como ser humano.  E tratam de desenvolver suas aptidões e seus talentos, aproveitando as oportunidades que surgem em sua existência. Como bem acatam a assessoria do especialista e são capazes de usar e de abusar de sua expertise, logo eles se põem a inovar e a criar valores  e artes e produtos. Naturalmente, são pessoas que expandem sua capacidade de gozar os prazeres e os confortos legítimos da vida.

Como são pessoas espertas, felizes, bens resolvidas, obtém bons encontros e fazem novas alianças muito promissoras. Assim caminham para resolver tudo aquilo de sua vida que é passível de ser resolvido e solucionado.

Eles logo aprendem a fazer as coisas dentro de um escopo de ligeiro e correto, para dar menos aborrecimentos e sobrar tempo para aproveitar os bons momentos da vida.

Eles logo aprendem que 

Pra frente é que se anda.

Mágoas passadas não movem moinhos.

 

Sigmund Freud, o redescobridor da dimensão inconsciente do psiquismo humano, tornou-se um conquistador capaz de decifrar o significado dos sonhos. A interpretação dos sonhos do consulente é uma das mais belas artes, terapeuticamente produtiva, na clinica. Ao deparar com os mecanismos de operação psíquica da condensação e do deslocamento, logo Freud percebeu a projeção, a introjeção e os restantes 79 mecanismos de operação do ego. Isso lhe permitiu dissecar os atos falhos e, logo, junto, pode descrever os símbolos operantes no psiquismo sempiterno da humanidade.

Os embondos e as trampolinagens da sexualidade logo transpareceram, claras, criando as vicissitudes dramáticas de nossas pessoas distintas, narcisistas, assertivas, conflitivas, introspectivas ou exibidas, extremamente verbais e criativas.

Nossas personalidades ocidentais, nossas identidades vicejam com o conflito e a oposição. A responsabilidade pessoal por nossos atos e omissões está no centro do nosso sistema. Sim, pois que a liberação sexual, nosso enganoso milagre dos anos sessenta, termina em lassidão e inércia.

A repressão psíquica e sexual, denunciado como o mal gerador da histeria e da neurose, por Freud, depois que a rompemos, percebemos que é a repressão psíquica que cria significado, propósito e empenho.

A desrepressão sexual e dos costumes dos anos sessenta rompeu a caixa de Pandora e espalhou o sexo homossexual, a AIDS, as drogas de curtição e pior dos piores, a violência gratuita, estúpida e assassina  que vitima a sociedade ocidental.

Expostos estamos á insanidade perversa desses males, vivemos com tensão aumentada, o que nos acarreta fadiga, desencanto e, até, colapso.

Em psicoterapia, induzimos o sofredor cliente a nos contar suas histórias de vida. Derrama ele seus sintomas, seus achaques, e queixa-se das injúrias e das ofensas que tem sofrido. Habitualmente, posiciona-se como vítima dos outros e do mundo. O psicoterapeuta ouve, de início, atentamente, e vai pontuando, espichando o relato, interrogando as falhas e os pontos obscuros. Se de inicio a escuta é atenta e arguta, inquisitiva até, ao longo da sequência de muitas sessões, a escuta evolui para uma atenção errática, flutuante, por parte do terapeuta.  Isso permite-lhe a escolta do paciente ao longo do processo que  para esse é necessário percorrer para se curar.

Como Cheherazade,  em As Mil e Uma Noites, o relato não se conclui. Daí a necessidade de nova e novas sessões. Preso na armadilha de si mesmo, o cliente vai bordando um especioso romance, cuja principal função é o paciente tornar-se capaz de escutar a si mesmo. Logo, adquire voz própria. Subsequentemente, adquire a escansão de sua consciência sobre os seus afetos, os fatos, os feitos e os defeitos presentes em sua trajetória de vida.

Já com algumas sessões, o cliente se ilumina com o desmantelamento de vários de seus sintomas, acompanhado da mitigação  de suas queixas e, mais significativo, percebe-se mais atilado, dotado que encontra-se por um crescimento interior de sua mentalidade.

Em poucas sessões, o cliente perde e distancia-se do álibi de suas ilusões douradas e de suas falsas atribuições as tantas coisas que, pretensamente, o infelicitam. É quando então cai de chofre no pleno contato com sua natureza humana.   Depara-se com sua realidade humana sexuada e finita. Aproximando-se e tomando maior intimidade com o que há de humano em si, o cliente aprende a lidar com a realidade das coisas, tais como elas são e, menos, não mais como gostava que elas fossem.

Desde Shakespeare, sabemos que a realidade é pura mudança. O real, duro, impérvio, no entanto, é transitório. A realidade é pura pirlimpsiquice : trampolinagens. Revolias e frenesias, mais uma vez, e desde sempre.

Ao longo do processo psicoterápico, o cliente perde os adereços e os badulaques de ser um joguete na sociedade – consumidor, expectador, eleitor, produtor, comprador, usuário, passageiro, elemento passivo e impotente.

Ao acostumar-se à introspecção, o individuo vê acrescida sua personalidade assertiva: torna-se mais e cada vez mais, sujeito a si mesmo, sujeito de si mesmo. Em plena asseidade: é quando então que percebe que  é dono e sujeito de si mesmo!

Passa a ser dono do seu alvedrio,  passa a saber melhor onde meter o seu nariz e a fazer mais vantajosas escolhas.

A introspecção, realizada no espaço tempo do sacrário da sessão psicoterápica, possibilita ao cliente sondar as vastidões do abismo até então obscuro, entre ele, como ser humano, e seus ideais e suas (des) ilusões e suas possibilidades.

Descarregado da ganga psiconeurótica, o consulente energiza-se de uma vitalidade que o torna facilmente capaz de se tornar agente articulador e compassivador de suas percepções e de suas circunstâncias conflitantes.

Um jucundo sobreproduto que ressalta da psicoterapia bem empreendida, é a espontaneidade e a exuberância pela qual passa a comportar-se a pessoa em sua vida de relação social.

A psicoterapia procura identificar a pessoa do cliente, ensinando-o o que sentir de seu, o que perceber como decisório valioso, para assim formular novos pensamentos mais modernos e consentâneos, traduzindo as verdades provisórias de que é capaz de suportar, sem se infelicitar e sem perecer.

Vivendo hoje em um mundo que nos solicita e nos esgarça para fora de nós mesmos, o tempo todo e cada vez tentadoramente mais, nossas populações tornam-se apassivadas, atoleimadas, ávidas expectadoras não críticas de tudo que lhes é oferecido em imagens turbilhonantes.  E inúteis, 99% delas.

Assim, o resguardo laico da sessão psicoterápica é um bastião, um baluarte profissional humanístico onde o privilegiado consulente retempera sua vontade própria e afina  sua autocrítica.

Só existe ser humano se e quando ele está dotado de força de vontade depurada e capacidade de ajuizamento pessoal  desassombrado.

O processo psicoterápico que promovo – a maneira marcoaureliana de professar psicoterapia – aufere da sabedoria secular do Ocidente, bebendo águas de todos os rios, sábio demais para ater-me a uma só crença. Trabalho desprovido de ideologias políticas, de crenças religiosas, de idealidades fashions. Isso implica desprezar as místicas de imanência, que, como falsos brilhantes, fascinam e capturam profissionais incautos de meia confecção.

Sei, com os hindus, os persas, os gregos, os romanos, com Montaigne, Shakespeare, Espinosa, Nietzsche e Harold Bloom, que a natureza humana ruge e flui, imperando, sobranceira, rumo a uma transcendência laica, dessacralizada, secular.

Em clinica psicoterapica há alguns marcos.

 Ninguém gosta de ser abandonado.

Ninguém tolera  ver seus méritos pessoais não reconhecidos.

Ninguém gosta de perder batalhas e contendas.

Ninguém gosta de ser enganado, defraudado, desprezado.

 Ninguém tolera bem ser esquecido

.       Ninguém gosta de ser preterido.

A exibição da franqueza é uma poderosa arma relacional.

Amor costuma ser muito barulho por nada.

Toda atração sexual é de origem imprevista e arbitrária.

É uma caixa-preta irrecuperável.

 

Em psicoterapia, terapêutica estribada em íntima relação médico-paciente, utiliza-se o verbo, a palavra, a linguagem, como meio privilegiado e preferencial de interlocução. No entanto, o psicoterapeuta experimentado tem sempre em mente, os versos de Shakespeare:

 

Oh loucura do Verbo,

Que escogita razões contra e a favor


Na própria causa!

  Tróilo  p.423

 

Eis o limite prudencial do processo, que se deve levar em conta.

 Não agimos de acordo com as nossas palavras. p.871

 

No entanto, outro subproduto útil é o fato de que, ao falar e ao se ouvir, o consulente logo aprende que seu pensamento aflora, descobre a idéia em seus berços mudos, biológicos, endógenos, inconscientes.

O lema que culmina e fecha o processo psicoterápico é aquele cunhado por Parolles:

 

A vida continua a ser risonha,

 Mesmo por que

 brio arrefece  e espada cria ronha

Parolles vai deixar de ter vergonha.

Minha vida vai depender, de agora em diante,

 apenas do que realmente sou. 

Parolles p.438

 

Eis ai a epítome do processo de individuação, de pessoalização e de personificação do humano que existe, em potencial, em cada cliente.

A partir daí, disso, é bom que nos comportemos com serenidade, pois estamos sempre nos deparando com pessoas com as quais não marcamos encontro algum. E elas é que, eventualmente, se tornarão nossos aliados e nossos novos diletos amigos.

A vida é comandada pelo capricho, pelo acaso, pelos acidentes que acontecem. Os horrores provém não mais dos deuses ou dos demônios mas provém, isto sim, do coração das trevas e do psiquismo maligno passível de ser disparado, inopinadamente, em cada um de nós.

Eros é o verdadeiro horror... pois mergulha o homem nos infortúnios da vida sexual.

 

       Em uma psicoterapia bem sucedida, presenciamos o desabrochar de um Eu interior em crescimento constante, adquirindo complexidade e diferenciação, mesmo à medida em que expande notável consciência acerca de sua bissexualidade. É dessa maneira que se erige  uma tão necessária Egodiceia.

        O cliente adquire e exerce uma liberdade interior que se derrama, benéfica, por sobre todos aqueles com os quais convive. A sensibilidade do cliente torna-se secular; seu autoconhecimento é engendrado a partir de si mesmo. Por vezes, em epifania, ele captura e alcança o sublime.

Nossas mutações, nossas metamorfoses são provocadas pelo acaso, pela fortuna, pelo evolver dos acontecimentos. Pela Morte, que é a igualitária mutação final. É isso que gira, incessantemente, a roda de nossa vida. Somos ludibriados, ainda, pelo amor, pelos nossos pais e por nossas doenças e pela decadência de nossa idade e saúde.

Vitalismo, exuberância, alegria, prazeres epicúreos são estratégias contra-depressivas.

Viver é criar uma obra de arte, uma poesia das coisas vividas tais como elas são, de fato.

Sem mistificações.

Isso porque somos feitos da matéria dos sonhos, de males e de bens; nossa vida pequenina é cercada pelo sono. Não nos aguarda a ressurreição.

 

O homem            folhinhas de esperanças

                            carregado de honrarias

                            vem a geada, a raiz lhe morde

                            caindo ele, tal como agora eu caio.

Próspero p. 833.

 

 

 


Sigmund Freud, o redescobridor da dimensão inconsciente do psiquismo humano, tornou-se um conquistador capaz de decifrar o significado dos sonhos. A interpretação dos sonhos do consulente é uma das mais belas artes terapeuticamente produtiva, na clínica. Ao deparar com os mecanismos de operação psíquica da condensação e do deslocamento, logo Freud percebeu a projeção, a introjeção e os restantes 79 mecanismos de operação do ego. Isso lhe permitiu dissecar os atos falhos e, logo, junto, pode descrever os símbolos operantes no psiquismo sempterno da humanidade.


Os embondos e as trampolinagens da sexualidade logo, transpareceram, claras, criando as vicissitudes dramáticas de nossas pessoas distintas, narcisistas, assertivas, conflitivas, introspectivas ou exibidas, extremamente verbais e criativas.

Nossas personalidades ocidentais, nossas identidades viceja com o conflito e a oposição.

A responsabilidade pessoal por nossos atos e omissões está no centro do nosso sistema.

Sim, pois que a liberação sexual nosso enganoso milagre dos anos sessenta, termina em lassidão e inércia.

A repressão psíquica e sexual, denunciada como o mal gerador da histeria e da neurose, por Freud, depois que a rompemos, percebemos que é a repressão psíquica que cria significado, propósito e empenho.

A desrepressão rompeu a caixa de Pandora e espalhou o sexo homossexual, a AIDS, as chagas de curtição e pior dos piores, a violência gratuita, estúpida e assassina, que vitima a sociedade ocidental.
Expostos estamos a insanidade perversa desses males, vivemos com tensão aumentada, o que nos acarreta fadiga, desencanto e até, colapso.