quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A História da Psicoterapia


A História da Psicoterapia

 21/08/13

Marco Aurélio Baggio

 

...E vivem os mortais de trocas mútuas.

                       Lucrécio

 

Psicoterapias são práticas milenares, mediante as quais um homem mais experiente acolhe as queixas existenciais de outro homem e procura indicar caminhos mais eficazes para solucionar a problemática do consulente.

Psicoterapia remonta a Antífon e sua arte de escapar da aflição. Para este sofista atuando por volta de 411 a.C. , a felicidade deriva de uma vida em harmonia consigo mesmo, usufruindo o sujeito de paz e serenidade, sendo capaz de evitar a perturbação e os incômodos desnecessários. Epícuro e Lucrécio são argutos pensadores que se basearam nas evidencias do que há de melhor humano entre nós.

Epíteto, romano, 50 d.C. – 127 d.C. escreveu o primeiro manual de psicoterapia: A Arte de Viver. Nele demonstra que é a razão a suprema retora da vida psíquica. Preconiza que cada um deve criar seu próprio mérito para com ele se autosustentar.

O maior psiquismo surgido na História da Humanidade, o verdadeiro criador do homem moderno, aquele cuja mente não conseguimos ir alem, William Shakespeare, disse, escreveu e dramatizou quase tudo o que se sabe sobre o poder terapêutico da linguagem em psicoterapia. Trezentos anos depois, Freud erigiu suas doutrinas, constituindo o corpo abstrato que se provou extremamente prático e eficaz acerca de como é e de como funciona o psiquismo humano, normal e neurótico.

Com Shakespeare, o personagem literário torna-se capaz de verbalizar seus afetos, suas emoções, seus conflitos, seus impasses, e, ao assim faze-lo perante uma platéia – ou um interlocutor silente e arguto - , torna-se capaz de escutar a si mesmo. Em Shakespeare, a vida é drama, e como tal, a realidade está sempre em mutação. Como tão bem ensinou Heráclito.

Em psicoterapia a díade, a dupla psicoterapeuta – cliente, colocam-se empenhados no processo/circuito de acrescer e de edificar a personalidade/pessoalidade do consulente.

Sabe-se que só nos humanizados através da relação de boa qualidade com outros homens. O que se quer é empreender a hominização progressiva do sujeito. Para tanto, o processo psicoterápico busca incrementar a capacidade de introspecção do indivíduo, visando este arrancar-se da obscura escuridão dos internos endógenos para aquilo que logo se torna a luz da intelecção e a iluminação esplendorosa de sua consciência. A psicoterapia tem por objetivo, por teleologia, fazer o cliente abraçar uma transcendência secular, laica, que contemple o sublime.

Sabe-se que, com extraordinária frequência, o homem tem em si seu maior inimigo.

A psicoterapia lida com nossas “crenças rachadas”, nossas incongruências e nossos paradoxos. Opera com a “doida salada” que provém de nossas escolhas e de nossas uniões incompatíveis. Cada vez mais, a psicoterapia utiliza os dados e os fenômenos  provenientes da dimensão inconsciente do psiquismo, para diretamente instrumentar um EU autônomo que atua e faz efeito ao acontecer. Hoje, o EU passa a gozar de um estatuto singular legitimo. Nele, no EU, há um espaço, uma ocasião para apreender o mundo das coisas e dos objetos, a fim de penetrar e inteligir seus muitos segredos.

. Se a vida não tem sentido adredemente determinado, faz-se sentido de vida ao se bem ou mau viver, em um mundo externo que insiste em se apresentar perenemente desarrumado e corrompido.

Se nosso mundo interno é um verdadeiro inferno, caldeirão freemente de tendências as mais desencontradas e,  sabendo que entre a criação e a queda há apenas um intervalo que nós chamamos ‘ nossa vida’, vive-se para desfrutar de momentos em que nós, homens, somos bufões donos de nossos fados.

Psicoterapia é o que vai permitir ao cliente passar a relativizar e a fluidificar aquilo tudo que acreditava e mantinha como sendo verdade absoluta. Em psicoterapia, logo se dissolvem as “certezas fajutas” trazidas como memes inoculados como verdades absolutas e incontestáveis no  psiquismo do sujeito. Logo, há um processo de desabssolutização do relativo. Junto, correlato, acontece a desilusão de suas ilusões e de suas pretenções irrealizáveis.

O cliente, a seguir, passa a desmisturar-se da meleca conglomerada daquilo tudo que comparece como um aglutinado indiferenciado em seu psiquismo.

O que dá estofo ao ser humano é a incorporação e a internalização de cultura humanística: conhecimentos esgrimidos de elevada qualidade. O psicoterapeuta posta-se como um sacerdote leigo, devotado a capacitar seu cliente a encarar e a atuar na realidade da vida e das coisas, tais como elas são.

A historia da psicoterapia é o relato de como, a partir de um  núcleo inclito do verdadeiro si mesmo – Self - , âmago endógeno, xispa de luz da mesmidade da pessoa, esta    passa a lidar com adequação e argúcia, com a dura, cruel e impávida realidade.

A vida enegrece em contato com a realidade. Viver é muito perigoso.

Toda psicoterapia tem por escopo, por objetivo, facilitar o desenvolvimento psicoafetivo do ser humano. É arte humana, ourivesaria humanística, mediante a qual obtém-se o desenvolvimento e expansão de um EU interior. Já que o que está fora do EU reduz-se à um mar de desventuras.

A natureza humana é a mesma em todas as épocas históricas e se apresenta como um EU implicado nas mesmas problemáticas, em uma conflitiva que é, ao mesmo tempo, lúdica, bélica, relacional que pouco varia.

No século XXI, a história da psicoterapia registra que existe uma única psicoterapia. Ainda que composta de miríades, de centenas de peculiaridades, de vicissitudes e de especificidades. Sendo tão importante e cada vez mais procurada por uma humanidade que tuge e muge em sofrimentos, o que nos espanta é o fato de que a psicoterapia ainda, não sei porque, não esta disponível para as multidões.   
Sua História continua a ser escrita...

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