A História da Psicoterapia
21/08/13
Marco Aurélio Baggio
...E vivem os mortais de trocas mútuas.
Lucrécio
Psicoterapias
são práticas milenares, mediante as quais um homem mais experiente acolhe as
queixas existenciais de outro homem e procura indicar caminhos mais eficazes
para solucionar a problemática do consulente.
Psicoterapia
remonta a Antífon e sua arte de escapar da aflição. Para este sofista atuando
por volta de 411 a.C. , a felicidade deriva de uma vida em harmonia consigo
mesmo, usufruindo o sujeito de paz e serenidade, sendo capaz de evitar a
perturbação e os incômodos desnecessários. Epícuro e Lucrécio são argutos
pensadores que se basearam nas evidencias do que há de melhor humano entre nós.
Epíteto,
romano, 50 d.C. – 127 d.C. escreveu o primeiro manual de psicoterapia: A
Arte de Viver. Nele demonstra que é a razão a suprema retora da vida
psíquica. Preconiza que cada um deve criar seu próprio mérito para com ele se
autosustentar.
O maior
psiquismo surgido na História da Humanidade, o verdadeiro criador do homem
moderno, aquele cuja mente não conseguimos ir alem, William Shakespeare, disse,
escreveu e dramatizou quase tudo o que se sabe sobre o poder terapêutico da
linguagem em psicoterapia. Trezentos anos depois, Freud erigiu suas doutrinas,
constituindo o corpo abstrato que se provou extremamente prático e eficaz
acerca de como é e de como funciona o psiquismo humano, normal e neurótico.
Com
Shakespeare, o personagem literário torna-se capaz de verbalizar seus afetos,
suas emoções, seus conflitos, seus impasses, e, ao assim faze-lo perante uma
platéia – ou um interlocutor silente e arguto - , torna-se capaz de escutar a
si mesmo. Em Shakespeare, a vida é drama, e como tal, a realidade está sempre
em mutação. Como tão bem ensinou Heráclito.
Em
psicoterapia a díade, a dupla psicoterapeuta – cliente, colocam-se empenhados
no processo/circuito de acrescer e de edificar a personalidade/pessoalidade do
consulente.
Sabe-se que só nos humanizados através da relação de
boa qualidade com outros homens. O que se quer é empreender a hominização
progressiva do sujeito. Para tanto, o processo psicoterápico busca incrementar
a capacidade de introspecção do indivíduo, visando este arrancar-se da obscura
escuridão dos internos endógenos para aquilo que logo se torna a luz da
intelecção e a iluminação esplendorosa de sua consciência. A psicoterapia tem
por objetivo, por teleologia, fazer o cliente abraçar uma transcendência
secular, laica, que contemple o sublime.
Sabe-se que, com extraordinária frequência, o homem
tem em si seu maior inimigo.
A psicoterapia lida com nossas “crenças rachadas”,
nossas incongruências e nossos paradoxos. Opera com a “doida salada” que
provém de nossas escolhas e de nossas uniões incompatíveis. Cada vez mais, a
psicoterapia utiliza os dados e os fenômenos
provenientes da dimensão inconsciente do psiquismo, para diretamente
instrumentar um EU autônomo que atua e faz efeito ao acontecer. Hoje, o EU
passa a gozar de um estatuto singular legitimo. Nele, no EU, há um espaço, uma
ocasião para apreender o mundo das coisas e dos objetos, a fim de penetrar e
inteligir seus muitos segredos.
. Se a vida não tem sentido adredemente determinado,
faz-se sentido de vida ao se bem ou mau viver, em um mundo externo que insiste
em se apresentar perenemente desarrumado e corrompido.
Se nosso mundo interno é um verdadeiro inferno,
caldeirão freemente de tendências as mais desencontradas e, sabendo que entre a criação e a queda há
apenas um intervalo que nós chamamos ‘ nossa vida’, vive-se para desfrutar de
momentos em que nós, homens, somos bufões donos de nossos fados.
Psicoterapia é o que vai permitir ao cliente passar a
relativizar e a fluidificar aquilo tudo que acreditava e mantinha como sendo
verdade absoluta. Em psicoterapia, logo se dissolvem as “certezas fajutas”
trazidas como memes inoculados como verdades absolutas e incontestáveis no psiquismo do sujeito. Logo, há um processo
de desabssolutização do relativo. Junto, correlato, acontece a desilusão de
suas ilusões e de suas pretenções irrealizáveis.
O cliente, a seguir, passa a desmisturar-se da
meleca conglomerada daquilo tudo que comparece como um aglutinado
indiferenciado em seu psiquismo.
O que dá estofo ao ser humano é a incorporação e a
internalização de cultura humanística: conhecimentos esgrimidos de elevada
qualidade. O psicoterapeuta posta-se como um sacerdote leigo, devotado a
capacitar seu cliente a encarar e a atuar na realidade da vida e das coisas,
tais como elas são.
A historia da psicoterapia é o relato de como, a partir
de um núcleo inclito do verdadeiro si
mesmo – Self - , âmago endógeno, xispa de luz da mesmidade da pessoa,
esta passa a lidar com adequação e
argúcia, com a dura, cruel e impávida realidade.
A vida enegrece em contato com a realidade. Viver é muito
perigoso.
Toda psicoterapia tem por escopo, por objetivo,
facilitar o desenvolvimento psicoafetivo do ser humano. É arte humana,
ourivesaria humanística, mediante a qual obtém-se o desenvolvimento e expansão
de um EU interior. Já que o que está fora do EU reduz-se à um mar de
desventuras.
A natureza humana é a mesma em todas as épocas
históricas e se apresenta como um EU implicado nas mesmas problemáticas, em uma
conflitiva que é, ao mesmo tempo, lúdica, bélica, relacional que pouco varia.
No século XXI, a história da psicoterapia registra
que existe uma única psicoterapia. Ainda que composta de miríades, de centenas
de peculiaridades, de vicissitudes e de especificidades. Sendo tão importante e
cada vez mais procurada por uma humanidade que tuge e muge em sofrimentos, o
que nos espanta é o fato de que a psicoterapia ainda, não sei porque, não esta
disponível para as multidões.
Sua História continua a ser escrita...
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